"Se você conhece uma mulher você conhece o mundo"

Honoré de Balzac

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Sozinha quem?


Estou há algum tempo sem escrever. Não sei dizer bem o motivo, talvez tenha forçado minha mente a fazer algo “mais produtivo”, já que isso aqui é apenas um passatempo e não me traz nenhum retorno financeiro. Ledo engano. Descobri que cada vez que leio, penso ou vejo algo que me toca sinto uma louca vontade de colocar isso para fora escrevendo. É como uma terapia, e me faz um enorme bem. Como andei sondando por aí e o preço da sessão de análise está pela hora da morte, arrumei uma forma de fazer minha própria terapia, e de quebra, economizar uns trocados. Ponto para mim, que agora posso continuar escrevendo sem culpa.
Mas não é nada disso que eu queria dizer. O que acaba de me deixar chocada é que já estava mesmo pensando em escrever algo sobre a solidão, que ultimamente tem tido um sentido completamente diferente para mim. Pois bem, acabo de ler a última crônica do livro da minha quase “irmã gêmea” Martha Medeiros e além de ficar emocionada, vim direto para o computador escrever o motivo de minha indignação. “A Garota da Estrada” fecha com chave de ouro o livro de crônicas Doidas e Santas, e parece ter sido escrita por mim, ou melhor, para mim.

A GAROTA DA ESTRADA

Basta entrar na estrada e ela vira uma pessoa diferente. Coloca a música que mais gosta, abre a janela do carro e pensa, com um sorriso indisfarçado: estou deixando para trás aquela outra. No porta malas, uma sacola com as roupas que a outra não usa durante a semana – tênis, um jeans surrado, umas camisetas e biquíni. Seu i-pod. Sua câmera fotográfica. Um livro ou dois, porque é preciso terminar a leitura que a outra começou, mas nunca tem tempo de concluir. Ao passar pela placa de sinalização, mais distante ela fica da cidade e mais perto de si mesma. Não são férias de julho nem férias de verão: são férias da outra!”

Impressionante. Quem me conhece sabe exatamente o significado que essas palavras tem para mim. Martha conseguiu traduzir em um parágrafo no que se resumiu para mim a palavra sozinha. Descobri que ela, a tão temida solidão, não existe mais. Estou sempre acompanhada da “outra”, e posso garantir que ela é uma ótima companhia.

Coincidência ou não, estava conversando sobre isso com uma amiga no final de semana. Ela contava que nunca, jamais entraria sozinha num cinema. Não sabe explicar bem o porquê, mas é um bloqueio. Confesso que eu tive a mesma sensação durante anos da minha vida. Sem mais nem menos, esse bloqueio acabou há cerca de um ano, mais ou menos na época em que comecei a ir para Búzios(!!!) e de lá para cá vou ao cinema s-o-z-i-n-h-a e tranquilamente, sem problema nenhum!

Acho que a questão do cinema é bem mais profunda do que supõe a nossa vã filosofia. Numa outra crônica, Martha fala da importância que representa um casal de mãos dadas no cinema. Ela diz que é ali, no escurinho e com a platéia de olho na tela, que se demonstra uma das mais importantes demonstrações de carinho, pois não há qualquer tipo de representação pública, é apenas um gesto de afeto.

Mas quando pensamos em ir Sozinha ao cinema, a questão se inverte. Ao invés de lembrarmos da sala escura, visualizamos uma enorme fila bem clara e cheia de casais de namorados. Pensamos ainda o que se passará na cabeça dessas pessoas tão preocupadas com a vida alheia, “que mulher é essa que não tem uma companhia para ir ao cinema?”

Sei bem que, no fundo no fundo, este é o bloqueio que impede minha amiga, e me impediu durante anos de ir ao cinema sozinha. Até descobrir que minha própria companhia pode ser bem mais agradável que as de quem acompanha a vida dos outros em fila de cinema, normalmente acompanhadas da solidão. Agora, em vez de me envergonhar, torço para que encontrem uma companhia de verdade. Pois eu já encontrei a minha.

Ah... e ainda podemos suspirar bem alto quando o Brad aparece na telinha. Tem melhor sensação de liberdade que essa???



Mia e eu (ou será "a outra"?) em Búzios, saindo da Privi com o dia claro...

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1 comentários:

  1. Mais um post magnifico!
    Eu costumo ir no cinema sozinho, mais o ar condicionado me da um friuzinho que vai na alma e me da vontade de ter alguém ao lado...

    Espetacular esse fim "e ainda podemos suspirar bem alto quando o Brad aparece na telinha."

    Concordo com você! ;)

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